O mercado de meio de ano do Flamengo já tem contornos definidos — e quem os traçou foi José Boto. O diretor de futebol concedeu declarações à ESPN nas quais deixou nítido que o volume de gastos das duas últimas janelas, por ele descritas como "muito, muito, muito fortes", não voltará a se repetir. O recado combina pragmatismo financeiro e raciocínio esportivo.
"Esta janela não vai ser igual àquela que foi a de janeiro, ou à de um ano atrás. Vai ser mais modesta", afirmou Boto, que completou o argumento com uma provocação: se a imprensa classifica o Flamengo como detentor do melhor elenco das Américas, como justificar a necessidade de sete ou oito contratações? "Não faz sentido", resumiu.
Cirúrgico, não amplo
O plano delineado pelo dirigente português aposta em intervenções pontuais — "uma ou duas posições", nas próprias palavras dele — e depende de saídas que não arranhem a espinha dorsal do grupo comandado por Leonardo Jardim. O modelo já tem um precedente recente: a transferência de Ryan Roberto, negociado por 9,5 milhões de euros quando restavam seis meses de contrato, foi apontada por Boto como o padrão de operação que o Flamengo quer reproduzir.
"Tentando fazer vendas que não afetem o rendimento esportivo da equipe", explicou o dirigente, acrescentando que os recursos obtidos precisam dar conta tanto de eventuais necessidades financeiras quanto de viabilizar as aquisições consideradas essenciais. Alvos e posições já estão mapeados, segundo ele, mas permanecem em sigilo — por estratégia de negociação e também por consideração aos atletas que hoje preenchem essas vagas no grupo.
Boto admitiu ainda um fator de imprevisibilidade capaz de alterar todos os cálculos: uma proposta inesperada e difícil de recusar por algum jogador do time titular. "Pode vir uma oferta que seja tão boa, e nós não estávamos à espera de perder aquele jogador, e isso vai nos obrigar a ter que substituir tal jogador", reconheceu, sem exibir alarmismo diante desse cenário.
O "efeito Paquetá" e a inflação de preços
Ao ser questionado sobre a supervalorização que o mercado passou a praticar com o Flamengo após negociações de alto impacto — o chamado "efeito Lucas Paquetá" —, Boto confirmou o fenômeno sem dramatizar. Como paralelo, citou o que ocorreu na Europa após o Atlético de Madrid desembolsar 120 milhões de euros ao Benfica por João Félix: os demais clubes passaram a cobrar do time espanhol valores muito acima do que exigiriam de qualquer outro comprador.
"Isso é um efeito que existe, e é um efeito que existe em todos os grandes clubes. E o Flamengo é um grande clube", pontuou. Sobre desistências recentes motivadas por preços fora da realidade, Boto admitiu que o Flamengo chegou a sondar o valor de determinados atletas apenas para ter um parâmetro — e se deparou com pedidos "muito maior do que aquilo que é o real valor do jogador".
Evertton Araújo, a próxima grande janela
Nenhum nome foi projetado com tanta convicção por Boto quanto Evertton Araújo. O dirigente explicou que as grandes transferências de jogadores sul-americanos para a Europa — aquelas na casa dos 30 a 40 milhões de euros — raramente envolvem atletas com mais de 24 ou 25 anos, e o meio-campista se enquadra exatamente nessa faixa etária.
"Muito provavelmente, vai ser a próxima grande venda do Flamengo", declarou. Apesar da cláusula rescisória fixada em 200 milhões de euros — montante que o próprio Boto considera improvável de ser ativado —, o dirigente acredita que o jogador deve seguir no clube até dezembro: "Não dá para garantir. Mas muito provavelmente vai terminar o ano aqui."
Pulgar, Plata e Emerson Royal: sem alarme
Três nomes que dominaram as especulações recentes receberam respostas distintas, mas igualmente serenas, de Boto.
Sobre Erick Pulgar, questionado a respeito de uma suposta multa rescisória de 4 milhões de dólares, o dirigente corrigiu o dado sem revelar o valor exato — garantiu apenas ser "mais do que isso" — e descartou preocupação: "Já conversamos com o jogador, o jogador está contente aqui. Não tememos perdê-lo." Boto situou Pulgar na faixa dos 32 ou 33 anos.
Gonzalo Plata, que protagonizou discussões internas, saiu da conversa com um voto de confiança indireto do treinador. Boto revelou que Leonardo Jardim jamais pediu a saída do equatoriano e sempre solicitou tempo para avaliar cada atleta em profundidade — tarefa dificultada pela densidade do calendário brasileiro. "Nunca, nunca, nunca pediu isso", repetiu o dirigente ao ser indagado sobre uma possível exclusão do jogador.
Já em relação a Emerson Royal e uma suposta aproximação do Aston Villa, Boto simplesmente se recusou a comentar qualquer negociação, real ou especulativa, enquanto o lateral segue treinando normalmente com o elenco.
Danilo, Marcos Antônio e o silêncio estratégico sobre Neymar
Dois nomes que a imprensa associou ao Flamengo — Danilo, do Botafogo, e Marcos Antônio, do São Paulo — foram elogiados por Boto, que não confirmou nem descartou qualquer interesse. "São tecnicamente dois excelentes jogadores", limitou-se a dizer, ressaltando que, apesar de atuarem em posições semelhantes, os dois têm perfis e estilos completamente distintos.
Neymar foi o tema que Boto mais evitou. Após tecer elogios generosos ao atacante — colocando-o no mesmo patamar técnico de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo e defendendo que foi "o menos protegido pelos árbitros" entre os três —, o dirigente preferiu não confirmar nem negar se o nome do jogador chegou a ser avaliado internamente. "Falar do Neymar, no Brasil, já me causou alguns problemas", justificou, optando pelo silêncio calculado.